Se ela ainda fosse viva eu trocaria de opção sexual.
Minha diva, companheira das minhas melhores leituras noturnas.
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria
como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se
estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à
frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para
dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e
ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao
toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de
admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em
não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos
erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não
via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que
estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais
erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham
prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito
exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um
nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se
estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a
carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já
cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho
que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o
que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às
vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro
completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples
infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E
até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar,
aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa
mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos
prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou
pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um
impulso. Não sou maduro bastante ainda. Ou nunca serei.
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Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a
procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel
importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas
vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura
do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como
seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em
que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto
já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam
inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me
cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não
sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso
contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na
cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior
perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.
No entanto tenho a intuição de que, passadas as
primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do
mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor
aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um
êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já
estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma
espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
CLARICE LISPECTOR
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