Parei ali, a um passo do último...do abismo que se abre debaixo dos meus pés: o da solidão
excruciante! Parei como que se de atriz da minha vida passasse à observadora.
Observei-me ali, parada, olhando para o abismo, vazia e seca, seca até de
lágrimas. Vi-me dura, imparcial, sem emoções, sem brilho nos olhos, como se
minhas partes moles tivessem calcificado e o que sobrou foi só a polidez social
que me conduz a não magoar os outros mais do que eles suportam. Lembrei-me de
Úrsula em Cem Anos de Solidão...queria atirar-me abismo abaixo, diluir-me como
um punhado de sal no oceano, evaporar como a ultima gota de orvalho da manhã. E
a frase escapou-me, como a confissão de um crime bárbaro no leito de morte:
-Cansei de ser EU!
Me ouvi pronunciar a confissão, senti o impacto
irradiando-se pelas camadas da minha mente, ecoando peito adentro. Quis chorar,
não pude! Abracei a verdade, não tinha outra alternativa, ela estava ali
escancarada, assumida, cuspida pela minha própria boca. Repeti:
-Cansei de ser EU!
Já havia cansado outras vezes, mas jamais assumido! Cansei
de tudo o que me compõe; cansei de mim e por continuidade de todos que me cercarão
ao longo da vida, especialmente dos homens que comporão os meus afetos e onde o
meu fracasso fica mais evidente.
Mas ter cansado de ser EU, não significa que
desistirei....matarei por sufocamento a velha EU, os hábitos nocivos; como um
cidade que se ergue no meio do deserto, construirei, tijolo por tijolo, a
pessoa que quero ser....não caibo mais dentro do que era...não quero mais quem
fui...

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