terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Shan Mei



Quando Shan Mei acordou despertada pelo canto das aves de Nagoia sentiu o aroma de chá por toda a casa, sabia que ele já estava a sua espera.
Seu esposo sempre preparava-lhe o chá, pegará por hábito esse pequeno carinho matinal, talvez pra compensar o fato de ser tão calado e nunca dizer-lhe o quanto ela era importante, então o chá era uma forma não verbal de expressar aquilo que não sabia faze-lo em palavras.
Apesar do casamento arranjado entre as famílias, Shan Mei  sabia que tivera sorte, o marido  era um bom homem,trabalhador, honesto e incansável,  não era amoroso, mas também nunca fora rude e nos momentos de intimidade sempre tratava-lhe com delicadeza, a delicadeza possível aos homens...
Levantou, banhou-se, vestiu-se e foi tomar o chá, fitou os traços dele, gostava de sua face bondosa e seus olhos distantes, sim ela amava-o profundamente. Sentia vontade de abraçar-lhe e acarinhar, mas isso não era permitido a uma boa esposa; não entedia os pudores e restrições impostas as mulheres. Se ele era seu tanto quando ela dele, por que não podia procurar seu afeto, achava hipócrita, injusto...Bebeu o chá como se bebesse o próprio esposo. Estava em chamas, mas não podia toca-lo, esperaria a noite chegar, esperaria que ele a quisesse, assim eram os costumes!
Ele tomou o chá, despediu-se e foi para o campo e ela passou o dia sofrendo de calores. Arrumou a casa, lavou as roupas, preparou a comida, cuidou do jardim, tudo o que competia a uma boa esposa. A casa era bonita, bem ventilada, feita de madeira boa, com cômodos espaçosos e bem arrumados e o jardim era um primor, junta das plantas Shan Mei encontrava uma paz que não sabia definir.
Enquanto preparava a terra, plantava sementes, aparava a grama e os galhos parecia que também arrumava, organizava e embelezava  sua própria alma.
Na solidão a natureza era sua única companhia, com ela conversava, a ela se misturava e ali de joelhos  junto as flores sentia-se parte de algo.
Não sabia se existiria algum dia, em um outro canto do planeta, um tempo e um lugar onde a vida das mulheres fosse mais do que servir e multiplicar. Shan Mei sentia que a falta de liberdade e autonomia eram pra ela um dia abafado de verão: sufocavam-lhe. Desde tenra infância fora ensinada a servir, mulheres eram "diferentes" dos homens, os meninos podiam tudo as meninas nada.
Tudo para as meninas era pesado, a sociedade empunha costumes, perfeição, como deveriam se vestir, andar, olhar, falar, pentear, cozinhar, respirar...
Talvez por isso gostasse de morar afastada da cidade e de ficar sozinha em casa, principalmente no jardim, ali sentia um pouco de liberdade, a natureza não exigia e nem julgava.

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